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2024

Das monoculturas aos novos ecossistemas

Joaquim Sande Silva | 16 de fevereiro

O eucalipto-comum (Eucalyptus globulus) foi introduzido em Portugal em meados do século dezanove, juntamente com muitas outras espécies de eucaliptos. No entanto, rapidamente se destacou das outras espécies, devido ao rápido crescimento e à excelente adaptação às condições ambientais portuguesas. Os incêndios têm favorecido a expansão da espécie, devido à sua adaptação ao fogo. Essa adaptação, e o abandono de muitas plantações, fazem com que muitas áreas de eucalipto não correspondam atualmente ao paradigma da monocultura para produção de madeira. Muitas dessas áreas são novos ecossistemas que evoluem naturalmente sem qualquer intervenção humana, e sem qualquer aproveitamento económico. Os desafios que estes novos ecossistemas apresentam são enormes, por trazerem associada uma perda de valor do território e pelas dificuldades em reverter essa perda.

Espécies insurgentes: repensar a recuperação a partir das experiências dos animais nos incêndios florestais

Verónica Policarpo | 16 de fevereiro

Como podemos compreender melhor a noção contemporânea de monocultura a partir da experiência subjectiva dos animais de viver em territórios feridos e/ou ameaçados pelas catástrofes ambientais? Partindo da reflexão e experiência resultantes do projecto ERC em curso “ABIDE: Animal ABidings: recoverIng from DisastErs in more-than-human communities,” a palestra conceptualiza as experiências animais a partir das suas capacidades e práticas imbuídas de significados próprios, como partes constitutivas de uma diversidade ecológica que potencia uma transformação insurgente, à revelia dos modos humanos de regulação das outras espécies, da paisagem e do território.

“Homens-abacaxi”, novidades coloniais e trans-plantas: ficções de frutas de plantação

Susan McHugh | 16 de fevereiro

Ao detalhar a história de uma plantação baseada no roubo de terras e no tráfico de seres humanos, a secção final do popular romance de James Michener, Hawaii (1959), apresenta uma visão dos descendentes de trabalhadores de diferentes grupos étnicos estrangeiros misturando-se numa “raça de homens abacaxi. Não se trata de ficção científica na narrativa de Michener, mas sim da ascensão e queda da Hawaiian Pineapple Company na vida real e da libertação social dos trabalhadores imigrantes, que ele identifica com os frutos literais – e também não-nativos – do seu trabalho. À luz dos atuais problemas de saúde humana e ambiental decorrentes da monocultura do abacaxi, a palestra analisa o sofrimentos de plantas, animais e pessoas no romance.

A magia da monocultura: escrever a história de uma aposta global

Frank Uekoetter | 15 de fevereiro

As monoculturas dominam o mundo da alimentação, e ninguém sabe porquê: não existe uma teoria convincente da monocultura e existem muitas provas conceptuais e empíricas dos benefícios da diversidade biológica. Então, talvez um historiador possa entender um empreendimento que confunde os agrónomos? Esta apresentação explora uma história eminentemente aberta.

(Re)perspetivar a monocultura de eucaliptos em Portugal

Susana de Matos Viegas | 15 de fevereiro

A invasão do território português pelos eucaliptos tem sido perspetivada de formas aparentemente múltiplas sem que se considere, no entanto, a monocultura como o problema principal. Nesta comunicação, parte-se do questionamento do que é floresta a partir de vivências indígenas sobre biodiversidade em contextos da floresta Amazónia e da Mata Atlântica no Brasil e de floresta tropical de monção em Timor-Leste – três paisagens exemplares na manutenção da biodiversidade. Este argumento desenvolve-se a partir de análises etnográficas sustentadas em trabalho de campo de longa duração realizado nestes contextos e a partir da análise de documentos oficiais sobre floresta em Portugal, nomeadamente o relatório dos megaincêndios de 2017.

O Brasil na história do plantationceno: permanências e metamorfoses do modelo colonial

José Augusto Pádua | 15 de fevereiro

O estabelecimento do modelo de plantações em espaços coloniais – combinando desflorestamento, monoculturas e escravismo – teve um papel histórico fundamental na criação de uma economia-mundo sob domínio europeu. No contexto atual, a presença das monoculturas em grande escala e da “mente monocultural” constitui um traço essencial da ordem socioeconómica que reproduz e amplia o Antropoceno como condição histórica. Desde a montagem do sistema de produção açucareira, o Brasil vem sendo um laboratório de experimentos sociais, territoriais e ecológicos baseados na monocultura com espécies exóticas. A apresentação pretende discutir as possíveis características comuns que podem ser observadas nessas experiências – como a negação dos ecossistemas nativos e da diversidade ecológica e cultural – examinando sua continuidade ou não com a herança colonial.

Planetariedade e diversidade: sobre algumas condições para o avanço de ação sobre o clima

Dipesh Chakrabarty | 15 de fevereiro

Os cientistas que estudam o sistema terrestre geralmente retratam este sistema como unitário. É este pensamento que estabelece metas como a descarbonização da economia global até 2050 e subjaz aos orçamentos de carbono que o IPCC elabora para a humanidade. Mas estas medidas criam um problema para pensar a política climática, pois a política baseia-se nas diferenças humanas. Não existe um “nós” humano global e indiferenciado que seja capaz de responder a estes desafios. O lugar deste “nós” humano ausente é hoje ocupado pela tecnologia e por economistas com planos para reformas de mercado, geoengenharia, captura e sequestro de carbono, e assim por diante. Esta palestra argumenta que o sistema terrestre, embora singular, não é um todo homogéneo. É, nesse sentido, uma unidade não totalizante. A política não tem de renunciar à sua base na diversidade e na diferença para responder a perspectivas planetárias e pensar formas de política climática que não deixem de lado questões de diversidade e de diferença.

Processo desconstituinte de direitos indígenas no Brasil

Carolina Santana e Manuela Carneiro da Cunha | 06 de dezembro

A Assembleia Nacional Constituinte ocorrida em 1987 e 1988 no Brasil foi palco de disputas conceituais e disputas de visões de mundo sobre direitos indígenas. Verificamos que estes argumentos fundantes que são rediscutidos incessantemente desde a Assembleia Nacional Constituinte como se não tivessem já sito objeto de debate e votação.

A Amazónia entre a fotografia, o ensaio e o estudo

Jorge Nájar e Elena Galvéz | 14 de novembro

O escritor peruano Jorge Nájar e a historiadora Elena Galvéz discutem a representação da época de exploração de borracha na Amazónia de uma perspetiva literária, histórica e artística.

Literatura da borracha: Amazónia peruana e Portugal

Percy Vílchez e Gerard Rodríguez | 14 de novembro

Os escritores peruanos Percy Vílchez e Gerard Rodríguez refletem sobre o período da exploração da borracha na Amazónia e sobre a forma como retratam esta época histórica nas suas obras.

Animais Amazónicos na Literatura Brasileira Contemporânea

Maria Esther Maciel | 04 de outubro

A palestra percorre algumas obras poético-ficcionais brasileiras do século XXI voltadas para o enfoque dos animais da Amazônia. O propósito é  abordar as diferentes formas de interação entre humanos e não humanos apresentadas nestes textos. Entre os autores incluídos, estão Astrid Cabral, Olga Savary, Micheliny Verunschk, André Gardel e Pedro Cesarino.

Futuros possíveis: imaginação e especulação para resistir no Antropoceno

Renato Sztutman | 30 de maio

O foco desta apresentação é o lugar da imaginação e da especulação na elaboração de respostas à crise instaurada pelo Antropoceno, época geológica na qual a humanidade se tornou a força predominante, colocando em risco a integridade do planeta.
 

Artes visuais indígenas e os paradoxos da construção das indigeneidades a partir da arte contemporânea

María Eugenia Yllia | 24 de abril

Apresentação de um panorama crítico das artes visuais indígenas amazônicas peruanas desde sua irrupção em Lima no final do século passado. 

 

Uma outra história das cidades perdidas da Amazônia: desenvolvimento e utopia no Brasil contemporâneo

Danielle Heberle Viegas | 13 de fevereiro

Nesta sessão, a oradora propõe uma análise do surgimento e desaparecimento de cidades na Amazónia brasileira ao longo do século XX até à atualidade, no contexto das políticas desenvolvimentistas e do modelo de urbanização técnico-autoritário.

Modernidades indígenas: las acechanzas de las lógicas cibernéticas y los aportes de la medicina ancestral

Pedro Favarón | 21 de julho

Nesta palestra estabelece-se uma ponte entre diferentes formas de modernidade, passando pela cibernética e pelo pensamento indígena amazónico.

¿Futurismos indígenas? Narrativas de anticipación y cine

Renato Sztutman | 20 de julho

Esta palestra discute a noção de futuro tendo como pano de fundo as cosmologias de diferentes povos indígenas, do Brasil à Austrália.

2022

Agricultura de brincadeira das baixas terras da América do Sul?

Manuela Carneiro da Cunha | 13 de outubro

No seu derradeiro livro, publicado em colaboração com um arqueólogo, o importante antropólogo David Graeber chama a agricultura praticada pelos povos indígenas das baixas terras sul-americanas de agricultura de brincadeira. Manuela se detém nas características de alguns exemplos dessa agricultura para entender sua natureza e as relações que esses povos tecem e mantêm com os vegetais.

 

Uma metodologia para a leitura territorial através dos vestígios da inscrição humana na natureza

Esperanza Martínez | 13 de outubro

Em sua palestra, Martinéz propõe uma leitura do território com base nos “vestígios” que os humanos inscrevem na natureza. Esses vestígios são figuras e símbolos pré-hispânicos ou indígenas, vistos tanto como uma possibilidade de investigar as concepções de natureza e humanidade das sociedades, quanto de realizar uma “terapia epistêmica”. Por fim, tal terapia é entendida como um questionamento das formas tradicionais de entender a produção de símbolos cerca da natureza e da cultura.

 

Os cantos: uma forma de relacionamento com a floresta e com a memória histórica amazónica a partir da cultura Shiwiar

Rosa Elvira Gualinga Chuji | 13 de outubro

 Rosa Gualinga, vice-presidente da nacionalidade Shiwiar da Amazônia equatoriana, cantora e conhecedora das terapéuticas tradicionais, apresenta as comunidades indígenas como protetoras da natureza amazónica. A liderança também apresenta os processos de aprendizagem sobre as qualidades das plantas em um contexto comunitário amazônico. Por fim, o canto opera como um elemento de cura na cultura Shiwiar.

 

O olhar colonial sobre a vegetação amazônica: estranhamento, seletividade e utilitarismo

José Augusto Pádua | 13 de outubro

Em sua apresentação Pádua propôs entender através de uma retórica textual e imagética como a Amazônia tem sido compreendida no pensamento ocidental. Trata-se de uma visita histórica acerca da construção discursiva da natureza amazônica através das ações de nomeação, classificação e comparação com a natureza ocidental, a fim de transformar a Amazônia em um objeto acessível e legível  ao Ocidente.

 

Narrativas e relacionamientos com a floresta amazónica pela perspetiva Kichwa

Zoila Castillo Tuti | 13 de outubro

A intervenção desta liderança política se concentra em mostrar como as plantas de seu território têm diferentes usos: ritual, curativo, alimentar, mágico, etc. Ela nos mostra a floresta amazônica como a principal fonte da qual as comunidades indígenas obtêm os elementos indispensáveis para suas vidas, tanto material como subjetivamente.

 

"Saudades das árvores compridas": retomar a terra e a vida com os Tikmū'ūn-Maxakali

Roberto Romero | 14 de outubro

Milhares de habitantes das florestas de Mata Atlântica que cobriam toda a região da atual fronteira entre os estados de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo (Brasil), os Tikmū’ūn – mais conhecidos como Maxakali – viram o seu território se converter num imenso deserto de capim colonião à medida em que a frente colonizadora avançou pela região a partir do século XIX. Apesar de habitarem, hoje, uma terra arrasada, os Tikmū’ūn preservaram em seus corpos, palavras e memórias a diversidade dos seres visíveis e invisíveis que habitam ou já habitaram suas florestas. Através de um vastíssimo complexo musical e ritual conhecido como yãmīyxop, estes homens e mulheres atualizam diariamente a presença da floresta em suas vidas, a despeito de toda a destruição do território que lutam para retomar e reflorestar. Nesta apresentação, revisito o histórico da devastação dos vales do Mucuri e Jequitinhonha, aproximando o passado da região com o futuro projetado para a floresta amazônica. A partir dos cantos e histórias dos yãmīyxop, reconstituo os vínculos dos povos Tikmū’ūn com a floresta e seus habitantes ancestrais. Por fim, apresento as recentes iniciativas destes povos para retomar a terra e a vida em seus territórios, em particular a experiência recente da Aldeia-Escola-Floresta, uma iniciativa que combina arte, política e educação “para fazer voltar a mata, as águas e os bichos”, como suas principais lideranças costumam formular.

 

O agrocídio e o planeta-pipoca: Pensando com Colheita Maldita, de Denilson Baniwa

Jamille Pinheiro | 14 de outubro

A legitimação do agronegócio predatório, da mineração ilegal e do racismo anti-indígena no Brasil encontra raízes na história da escravidão e da ditadura militar, bem como no discurso desenvolvimentista e no mito da democracia racial que persistem no país. Considerando esse contexto, discutiremos o curta-metragem Colheita Maldita, realizado pelo artista indígena amazonense Denilson Baniwa como comissionamento do projeto Culturas do Antirracismo na América Latina, da Universidade de Manchester, de cuja gravação a pesquisadora e curadora indígena mato-grossense Naine Terena e eu participamos. A obra faz referência paródica ao filme de Fritz Kiersch lançado em 1984, conhecido em Portugal como Os Filhos da Terra. Conforme veremos na apresentação, essa experiência de criação e resistência estética lança um alerta diante do agrocídio cometido pelo crescimento desenfreado do modelo de produção de monocultura.

Plantas em narrativas cosmogônicas amazônicas

Lúcia Sá | 14 de outubro

Esta apresentação examina o papel de várias plantas em narrativas cosmogônicas da região Amazônica – tanto narrativas históricas coletadas por intermediários não-indígenas, quanto narrativas publicadas mais recentemente por autores indígenas.

 

Como a Amazônia foi formada pelos povos da floresta

Eduardo Góes Neves | 14 de outubro

Esta palestra analisa a arqueologia da Amazônia a partir da ação ameríndia sobre o território e a vegetação. Um dos principais argumentos discutidos é o de que a reconhecida biodiversidade amazônica está enraizada na diversidade cultural da região.

Hidrelétricas Re-imaginadas: Arte e Ecofeminismo em Belo Monte

Victoria Saramago | 3 de maio

Esta apresentação discute como o impacto da construção de usinas hidreléctricas de grande porte tem sido abordado em obras contemporâneas no âmbito da literatura e das artes visuais. Baseando-se no caso da hidrelétrica de Belo Monte, Saramago examina questões tais como a luta por visibilidade e processos de narrativização através de uma tendência ecofeminista na produção atual.

 

De Correntes e Remoínhos: Forças Hidráulicas e Trabalho Humano na Amazónia

Javier Uriarte | 3 de maio

Com foco nos escritos do engenheiro colombiano Miguel Triana do início do século XX, e levando em conta as drásticas mudanças na paisagem amazônica atual, como consequência da construção de hidrelétricas como a de Belo Monte, este trabalho tem como objetivo estudar comparativamente maneiras como essas correntes fluviais foram descritas, imaginadas e pensadas na região amazônica.

 

El Río: discursos sobre as relações multiespécies

Juan-Carlos Galeano | 3 de maio

El Río é um documentário sobre rios amazônicos que provoca uma reflexão sobre os sofisticados sistemas de conhecimento e letramentos científicos que as comunidades amazônicas desenvolveram para interpretar a globalização, as mudanças climáticas e as controversas relações humanas com os rios, ecossistemas e múltiplas espécies que os habitam.